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5 minutos com Marcos Ramos – Sobre Caio F. e sua multiplicidade

Na próxima segunda-feira (12 de setembro), um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira completaria 63 anos, se estivesse vivo. Seu nome é Caio Fernando Abreu (foto). Jornalista, dramaturgo e escritor, com obras que marcaram as décadas de 70, 80 e 90. O comentarista Marcos Ramos lembra a importante data, fala um pouco sobre a escrita do autor e aproveita para convidar novos leitores a mergulharem nas histórias de personagens tão próximos, criados por Abreu para acertar nossas vidas em cheio.

Para ouvir o comentário, clique aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Leia abaixo o comentário de Marcos Ramos ao pé da letra:

Caio Fernando Abreu foi – e, muitas vezes, volta a ser –, um autor especialmente importante para minha aproximação com a literatura; e importante, sem dúvida, para minha maneira de pensar a escrita literária. Caio habita um lugar muito interessante: há a escrita cárnea e indelével do corpo que queima o cigarro no peito, do movimento de busca que é incessante, do estrangeiro que não fixa ou consolida em um lugar, do pensamento que recusa uma causa, o partidarismo, mas não se furta ao desespero, a depressão, a solidão, apesar da amizade; a rispidez, apesar da tolerância. Sua escrita, além disso, é um corpo urgente que não recusa a paciência do cuidado.

Caio não é o escritor desatento que deixa a escrita ser vencida pela história, tampouco dono de uma escrita que se encerra em si mesma. A imagem que aponta a partir dos textos ficcionais, das cartas, dos relatos, é um Caio profundamente múltiplo. Uma multiplicidade que grande parte da crítica vê como influência tropicalista, mas vejo simplesmente como a escrita da dimensão do humano.

Quem percorrer a obra de Caio verá como está imersa em referências que oscilam entre o pop e o erudito, o massificado, a vanguarda e a contraculturaBeatles, Cazuza (foto) e Erik Satie, juntos. Caio entrou em todas as estruturas e saiu de todas as estruturas. Era budista, católico, místico, bruxo e não era nada disso. Passeava. Acreditar, realmente, talvez só na escrita como possibilidade de sobrevivência.

Caio escrevia obsessivamente. E diferente de grande parte dos escritores, Caio não conseguia, aparentemente, se livrar das obras e terminá-las. A obra de Caio está sempre por fazer. O que temos é um processo. Os textos foram, várias vezes, revisitados e modificados: edições diferentes, títulos alterados; um processo que foi fatalmente interrompido devido a sua morte.

Em perspectiva, vejo a obra de Caio dividida em pelo menos dois momentos. Um primeiro momento, de 1970 – quando publica seu primeiro livro “O inventário do irremediável” – até 1975 – quando publica “O ovo apunhalado” –, sua obra é marcada por uma forte influência da literatura hispano-americana, uma influência fortíssima de Clarice Lispector (foto), é um período marcado por muita experimentação e as narrativas estão quase sempre em um ambiente subjetivo. Com a publicação de “Morangos Mofados”, em 1982, seu livro mais popular, outras questões passam a habitar o texto de Caio. A falência de uma tradição moderna – das rupturas e das utopias, por excelência –, a quase impossibilidade dos laços afetivos, a sexualidade latente – quase sempre representada pelo homoerotismo –, a precariedade do corpo e a morte. A narrativa caminha cada vez mais para um ambiente hegemonicamente urbano e fluido. O fluxo das grandes cidades é determinante.

Nos últimos anos, contos, romances, crônicas, peças e até seu extenso volume de cartas têm sido publicados, reeditados e revisitados. O crescente interesse na obra de Caio tem deslocado o recorrente olhar de literatura gay (para gays), literatura de gueto, para um olhar universalizante. Ao contrário do que garantiu a escritora Márcia Denser (foto) em um famoso texto sobre Caio, ele tem sido cada vez mais descoberto não como um escritor de gênero, mas como um escritor que, por meio da escrita, muitas vezes, dos afetos homoeróticos, alcança a universalidade abstrata do laço afetivo, e do humano. Caio é, afinal, um grande escritor.

Caio Fernando Abreu nasceu no interior do Rio Grande do Sul em 1948. Publicou nos anos 70, 80 e 90. Morreu em 1996, vítima da Aids.

Marcos Ramos é editor da Água da Palavra – Revista de Literatura e Teorias, poeta e pesquisador.

marcos@marcosramos.com.br

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