É hora de teatro! Moisés Nascimento entra em
cena no 5 minutos desta semana para abrir as cortinas da história do teatro brasileiro, trazendo no centro do palco do seu comentário, um pouco da vida e da obra do grande escritor, crítico e teatrólogo Luís Carlos Martins Pena (foto).
Ouça o comentário clicando aqui.
O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.
Quer saber mais sobre Martins Pena? Leia abaixo o comentário estendido de Moisés Nascimento:
Nascido e criado no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, Martins Pena (1815-1848) foi literalmente um homem do teatro. Conhecido por inserir no palco o cotidiano da corte carioca, bem como as diversas peculiaridades que caracterizavam a sociedade do seu tempo, o dramaturgo é considerado o “fundador do teatro nacional”.
Isso porque – ainda que o marco inicial seja historicamente dado à peça Antonio José ou O poeta e a Inquisição (1838), de Gonçalves de Magalhães (foto) – foi Pena quem primeiro representou a realidade brasileira na ribalta.
É interessante refletir sobre o momento histórico em que surge Martins Pena. Precisamente em 1836, com a revista Niterói, o Romantismo surgia na literatura brasileira como uma forma de busca pela identidade nacional, inspirado diretamente nas conquistas românticas já em curso em toda a Europa. Antes disso, em 1822, o Brasil tornava-se “independente” de Portugal pelas mãos de D. Pedro I (que, nove anos mais tarde, iria abdicar-se do Império). Ora, nosso dramaturgo nasceu em 1815, e todos esses episódios marcaram a sua formação enquanto cidadão e escritor. Do nascimento até a encenação de O Juiz de Paz na Roça (primeira peça encenada do dramaturgo), em 1838, Pena conviveu com uma sociedade brasileira que ansiava ser parte da tradição ocidental de forma independente, desvinculado do passado colonial lusitano.
É fato que essa tentativa de inserir-se a todo custo na tradição ocidental trouxe embaraços para o país em todas as ambiências: artística, cultural, econômica, política e social. Fico aqui apenas com um exemplo nas artes cênicas: a obra tida como marco inicial do teatro brasileiro (citada acima) foi escrita nos moldes clássicos, tinha a palavra “tragédia” como sub
título e a história se dava em Lisboa; tudo isso num período em que a Europa vivia uma efervescência do drama romântico (sobretudo na França, dado o enorme sucesso do “prefácio” de Cromwell – Do Grotesco e do Sublime –, de Victor Hugo – foto) e a discussão sobre a identidade nacional estava em alta. Ou seja: havia, nos intelectuais da “independência”, o desejo de construir uma tradição diversa de Portugal, de inserir o debate da “nação” na ordem do dia do brasileiro; porém, se as condições culturais, econômicas e sócio-políticas já eram muito aquém das que se via no velho mundo, o que diremos esteticamente? Faltava, por parte dos nossos primeiros escritores românticos, a assimilação das novidades estéticas em voga na Europa. É só observarmos quão conservadora era a literatura feita pelos nossos primeiros românticos, recheada de classicismo arcaizante, com raros voos de qualidade.
Tais incongruências não ficaram de fora do olhar de Martins Pena, que, de forma aguda, tanto em suas peças quanto em suas críticas teatrais, “encenava” o Brasil da primeira metade do século XIX. Uma prova disso é que, designado para fazer a crítica dos espetáculos líricos no Jornal do Comércio, revela-se um profundo conhecedor não só de arte cênicas (que conhecia desde a prática teatral – cenário, representação, maquinarias – à sua história, sendo não raro seus incisivos argumentos a causa de grandes polêmicas no teatro representado na corte brasileira), mas também do panorama social, cultural e econômico do país. Abaixo seguem dois exemplos: o primeiro mostra sua preocupação com a estrutura cênica e o figurino; o segundo tece uma crítica sobre o fazer teatral da época:
(1) …devemos advertir ao Sr. Mullot (Edgard) que ele foi da Escócia à França, onde se demorou algum tempo e voltou sem mudar de traje, e que, quando se apresentou no castelo de Asthon, tendo feito uma jornada sem descansar, nem um átomo de poeira trazia nas botas. (Folhetins)
(2) Se não nos podemos guindar à lírica sublimidade ou à grandíloqua eminência da epopéia, fiquemos na rasteira e singela narração da verdade… Mas como, se a verdade aqui parece peta?… Como, se a verdade aqui, para não provocar indignação, carece de ser auxiliada provocando bom frouxo de riso? (Folhetins)
Se no primeiro comentário é possível ver como as cenas de amadorismo, de inverossimilhança não passam despercebidas ao crítico, no segundo ele mergulha não se limita apenas a uma discussão cênica, mas debate também para a realidade social da corte carioca. Em poucas linhas, Martins Pena discute a falta de companhias teatrais capazes de elaborarem espetáculos líricos sofisticados (vale recordar que a “comédia” era tratada como um gênero menor) e a ambivalência da verdade no Brasil do seu tempo, que mais se assemelhava a mentira (peta), somente podendo ser dita através de boas risadas.
Essa visão aguda já tinha sido demonstrada na peça O Juiz de Paz na Roça. Vejamos um trecho da fala do juiz, presente na cena IX:
[...] (batem à porta) Quem é? Pode entrar. (entra um preto com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao Juiz. Juiz, lendo a carta) “Ilmo. Sr. – Muito me alegro de dizer a V. Sa. que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V. Sa. pelos circunlóquios com que lhe venero”. (deixando de ler) Circunlóquios… Que nome breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (lendo) “Tomo a liberdade de mandar a V. Sa. um cacho de bananas-maçãs para V. Sa. comer com a sua boca e dar também a comer à Sra. Juíza e aos Srs. Juizinhos. V Sa. há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sa. fará o favor de aceitar as bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser – Manuel André de Sapiruruca”. – Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para o teu tabaco. (sai o negro) O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. [...]
Para além do efeito cômico presente na cena, há aí uma crítica social profunda. O Juiz de Paz…, “tão camponês como os outros, mas cooptado pelo poder”, “utiliza a justiça em benefício próprio”, trabalha como quer, “faz uso de aparelhos governamentais como propriedade privada”, etc. Percebe-se que, através do “riso frouxo”, Martins Pena aí encena os absurdos, debilidades e fraquezas da sociedade brasileira.
Longe de seguir “a típica cultura ornamental da época”, conforme observa Vilma Arêas, Martins Pena busca “uma tomada de consciência de um momento da história de nosso país, que recém adquiria uma limitada independência”, e tenta “pensar criticamente nossa cultura, com as restrições que o contexto impunha ao trabalho intelectual”. Desvencilhando-se da tradição clássica, das comédias francesas, do teatro lírico e do melodrama, e criando uma nova comédia com traços muito pessoais, é possível afirmar que Martins Pena construiu um teatro de resistência, desfocado dos intelectuais burgueses do seu tempo. Sem sombra de dúvida, sua obra possui um significado ímpar na história do teatro brasileiro.
Fontes de consulta:
Arêas, Vilma. “A comédia no Romantismo brasileiro: Martins Pena e Joaquim Manuel de
Macedo”. In: Revista Novos Estudos. V. 76. São Paulo: CEBRAP, 2006, p. 197-217.
_________. Iniciação à comédia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
_________. (Org.) Martins Pena: comédias. 3 volumes. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
_________. Na tapera de Santa Cruz. São Paulo: Martins Fontes, 1987
Moisés Nascimento é graduado e Mestrando em Letras pela UFES. Compositor, músico e professor de literatura. Atualmente é colaborador do Portal Yah! através deste blog. Fale com ele: moyseshoots@gmail.com








