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Bolsa Cultura Jovem

Vamos falar de cinema brasileiro? Ou melhor, vamos falar do NOVO CINEMA BRASILEIRO! Demorou, mas finalmente chegou o conteúdo do 5 minutos com o comentário da jornalista Carolina Ruas sobre a nova safra de produções audiovisuais do país. Com filmes produzidos com até 50 mil reais, esses novos cineastas se juntam em coletivos e ganham a cena em uma nova estética caracterizada pela geração B.O. (baixo orçamento). O filme Riscado (foto), de Gustavo Pizzi, é um dos exemplos citados pela Carol.

Quer ouvir o comentário completo? Clique aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Abaixo, o comentário de Carolina Ruas ao pé da letra:

Difícil falar em uma nova tendência do cinema sendo independente e de baixo orçamento quando a realidade dessa categoria, como um todo, no Brasil, sempre foi muito próxima do cinema de baixos recursos comparado ao resto do cinema hegemônico mundial. Assim, em termos produtivos e orçamentários, podemos entender que quase 90% do cinema feito no país poderia ser chamado de baixo orçamento, mas no contexto nacional, existem grandes diferenças nas produções que tem orçamentos próximos. Para a Agência Nacional do Cinema (Ancine), então, convencionou-se chamar de cinema independente toda a produção que não tem vínculo direto com empresas da teledifusão; e baixo orçamento, seria a classificação, também segundo a Ancine, dos filmes produzidos com menos de R$ 2 milhões.

A dificuldade em definir essa classe vem justamente com a ascensão de um tipo de cinema (que chamamos de independente pelas classificações acima ou por uma falta de compreensão de como ele se comporta) que tem elevado a produção brasileira nos festivais, e que, além dos entraves produtivos, também apresenta uma nova estética. A sétima edição da Mostra Produção Independente da ABD Capixaba (em outubro passado) trouxe filmes e debates sobre essa construção e colocou uma questão interessante: existe uma nova estética se formando com a geração B.O. (baixo orçamento)?

Os filmes exibidos como representantes dessa nova safra, A Alegria, Riscado e Os Monstros, parecem não ter necessariamente uma aproximação de estilo evidente. É certo que tais obras possuem certa fluidez na narrativa que caminha para a escolha de um nicho onde ele encontra seu público e seu eco. Entretanto, é inegável que o que une esses exemplares é o arranjo produtivo que se encontra por trás da obra e que se multiplica por todo o país a ponto de ter se tornado referência como a melhor safra da produção brasileira contemporânea.

Alguns pontos que caracterizam essa nova geração (que mal chegou aos 30 anos de idade) é a disposição em fazer filmes com os recursos que tem em mãos, economizando no tempo, na equipe e sempre buscando saídas criativas que não pesem no orçamento.  Há, nesse sentido, um crescimento na utilização de recursos privados e o desprendimento de editais públicos de incentivo, ao mesmo tempo que surgem investimentos de fundos internacionais nessa produção brasileira, como o holandês Hubert Bals, que financiou a finalização de A Alegria.

Uma outra característica marcante na nova safra de cinema brasileiro (e independente) é a utilização de uma força colaborativa na produção. Pessoas que pensam cinema também estão cada vez mais organizados em coletivos ou produtoras informais que investem na produção de cinema autoral. Nesse sentido, despontam nomes como o Coletivo Teia (MG), o Coletivo Alumbramento (CE) e a Duas Mariola (RJ).

Cavi Borges (foto), realizador de diversas obras a frente da Cavídeo Produtora, em entrevista a Revista Milímetros da ABD Capixaba, explicou de uma maneira bem simples como funciona o troca troca de funções dentro da produtora: “São vários parceiros que fazem parte dessa rede. O Gustavo Pizzi, por exemplo, editou o L.A.P.A., produziu A Distração de Ivan, e aí eu decidi produzir o Riscado. Nesse esquema, a Cavídeo consegue fazer curtas com 3 a 4 mil reais e longas com 20 a 50 mil reais”.

Em uma perspectiva ainda mais acentuada de coletivismo, os cearenses do Alumbramento se destacam pelas suas produções que já foram comparadas ao cinema de Glauber Rocha (foto). Estrada para Ythaca e Os Monstros são obras realizadas pelas quatro cabeças – Luiz e Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente – que assinam roteiro, direção, fotografia, edição de som, montagem e inclusive atuam no filme. Dominando todas as fases do processo cinematográfico, eles conseguem fazer filmes com 2 mil reais e que resulta num alto grau de autoralidade que espanta os críticos e plateias de todo o mundo.

Apesar de estar diretamente atrelada à questão financeira, não é somente o baixo orçamento que define o ‘cinema B.O.’ brasileiro. Parte mais de um sentimento de pró-atividade que tem mobilizado esses jovens atores do cenário a produzir e se posicionar no mercado entendendo a necessidade de transformação do cinema brasileiro. A estética B.O. é mais que cinema independente, é a própria renovação do cinema brasileiro que, ao invés de esperar que cheguem bons ventos, prefere construir seu próprio ventilador.

Carolina Ruas é jornalista, coordenodora de Comunicação do Fora do Eixo -ES e participante do Grav (Grupo de Estudos Audiovisuais – Ufes)

carolina.ruasp@gmail.com / @carolruas

Talvez na escola o professor alguma vez já tenha perguntado “O que é música?”. Questão cada vez mais difícil e complexa de se responder. Dia 15 de outubro foi o Dia do Professor, e o nosso comentarista musical do 5 minutos, Fernando Duarte, aproveitou a data especial para pensar o ensino da música, citando desde o plano pedagógico de Villa-Lobos (foto) ao comportamento do ensino atual. Afinal, música é arte ou entretenimento?

Ouça o comentário clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Leia o comentário de Fernando Duarte ao pé da letra:

Aproveitando a recente comemoração do Dia dos Professores, vamos falar de uma atividade que sempre foi importante para os músicos: a educação musical. Afinal, todo músico precisou aprender com alguém, seja de forma escrita ou oral, e dar aulas sempre foi uma das fontes de renda mais importante para o profissional.

Como é fácil imaginar, a educação musical como projeto público, está atrelada a um objetivo político. No Brasil, isso é claro desde os primeiros jesuítas, que usavam a música e o teatro para catequizar os índios. No início do século XIX, a transferência da corte portuguesa deu um impulso na produção artística e, consequentemente, aumentou o nível de exigência dos artistas, incentivando o estudo.

Na nossa história republicana, o mais expressivo exemplo dessa relação foi o plano pedagógico de Villa-Lobos. A ideia de educar musicalmente o país utilizando o canto coral e temas da música popular e folclórica foi abraçada pela ditadura de Getúlio Vargas (foto) como ferramenta de fortalecimento do nacionalismo e da disciplina nas escolas. Já a ditadura dos militares preferiu excluir a matéria do currículo. Hoje, tentamos substituir nas escolas o genérico ensino de “Artes” por aulas de música. No entanto, muitas questões ainda não estão respondidas sobre essa prática.

Já de início, esbarramos com a definição cada dia mais complexa de “o que é música” e como aproveitar em sala de aula suas múltiplas formas. É certo que o ensino de música nas escolas não visa necessariamente à formação de músicos. Numa realidade em que música está associada à grande indústria de entretenimento, é importante fortalecer práticas musicais locais e reforçar a identidade cultural do aluno. Além disso, é importante munir o estudante de informação e conhecimento que propicie acesso a outras formas do fazer musical, ampliando seu leque de experiências musicais.

O processo de educação musical passa não só por aprender a tocar, mas por aprender a ouvir e entender a música como parte de sua história e se reconhecer como parte de uma prática cultural.

Fernando Duarte é musicólogo pesquisador, instrumentista, compositor e arranjador com passagem por vários grupos de choro, mpb, rock, jazz e pop.

fernandond@gmail.com / www.myspace.com/fernandonduarte

Começou um dos eventos mais esperados no segundo semestre em Vitória: o Festival Nacional de Teatro! Em cartaz na capital de 13 a 23 de outubro, o festival chega a sua 7ª edição, apresentando mais de 30 peças, entre comédias, dramas, monólogos e espetáculos na rua, tudo com entrada gratuita – incluindo um espetáculo encenado em francês (FOTO). Moisés Nascimento, comentarista teatral do 5 minutos, fala sobre a variada programação e indica as peças imperdíveis. Algumas já aconteceram, mas muitas outras ainda vão brilhar nos palcos da cidade. É só marcar na agenda, fazer o seu roteiro e garantir o seu lugar na plateia.

Confira o áudio do comentário clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça, ao vivo, pelo site.

Leia o comentário de Moisés Nascimento ao pé da letra:

O Festival Nacional de Teatro Cidade de Vitória, organizado pela prefeitura municipal, irá percorrer os principais espaços da cidade – Teatro da Ufes, Sesi, Carlos Gomes, Centro Cultural Carmélia, Estação Porto, e Fafi – além da Praça Costa Pereira e bairro Itararé, locais onde acontecerão as apresentações de Teatro de Rua. Nos próximos 10 dias, a cidade vai respirar espetáculos de diversas temáticas, linguagens, sabores, encenados por respeitadas companhias teatrais, locais e nacionais.

De minha parte, fiz aqui a minha lista de peças imperdíveis que desejo compartilhar com os nossos ouvintes/leitores (de imediato, é importante frisar que se trata de uma seleção pessoal, sem nenhuma pretensão de qualificar “isto” ou “aquilo” como de qualidade ou não).

Daqui do estado, elegi como imperdíveis os seguintes espetáculos:

- Há Judas pra Malhar? – Companhia Folgazões. Dia 13, quinta-feira, Teatro do Sesi, 19h.

Livre adaptação da peça O Judas no Sábado de Aleluia, clássico de Martins Pena – este, comumente considerado pelos historiadores como o fundador do teatro nacional.

- O drama Orfeu – Cia Circo Teatro Capixaba. Dia 15, Sábado, FAFI, às 19h.

Adaptação para o teatro de rua da famosa história da mitologia grega.

- Bernarda, Por Detrás das Paredes – Grupo Repertório Artes Cênicas e Cia. Dia 17, segunda-feira, Carmélia, 19h.

Livre adaptação do texto A casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, e da Poética, de Aristóteles.

- O Coração delator – Grupo Beta de Teatro. Dia 18, terça-feira, Teatro do Sesi, 19h.

Espetáculo inspirado em três contos de Edgar Allan Poe: o que leva o título da encenação, “O gato negro” e “A queda da casa de Usher”. Tem a direção de Fernando Marques, do Grupo Z de Teatro.

- Stultifera Navis, A Nau dos loucos – Cia Teatro Urgente. Dia 20, quinta-feira, Teatro Carlos Gomes, 21h.

Espetáculo de dança, foi construído com base nas obras homônimas do pintor Hironymus Bosch, do ensaísta e filósofo Michel Foucault e da dança de Magno Godoy.

NACIONAIS E INTERNACIONAL:

Tio Vânia (Aos Que Vierem Depois de Nós) – Grupo Galpão (MG). Dia 13, quinta-feira, Teatro Carlos Gomes, 21h.

Encenação e adaptação da peça Tio Vânia, do escritor russo Anton Tchecov.

L’Ode Triomphale – Groupe Théàtre D’Or (França). Dia 14 e dia 15 – Sexta e Sábado – Teatro Carmélia, 20h.

Espetáculo experimental, que envolve a performance, a poesia, o teatro e a dança. Tem como texto base o poema “Ode Triunfal”, do heterônimo pessoano Álvaro de Campos.

Eros Impuro – Brasília (DF). Dia 15, Sábado, Teatro do Sesi, às 19h e 21h.

Escrito e dirigido pelo crítico teatral brasiliense Sérgio Maggio, o espetáculo é um monólogo protagonizado pelo ator J. Abreu. A peça discute o erotismo e a pornografia, bem como os limites moralizadores que demarcam essas definições.

Guerreiros da Bagunça – Pernambuco. Dia 16, Domingo, Teatro do Sesi, 17h.

Texto do gaúcho Guto Greco, dirigido por Rudimar Constâncio, trata-se de um musical infanto-juvenil inspirado em Romeu e Julieta, de Shakespeare. Aqui, o clássico inglês ambienta-se num lixão e é protagonizado por gatos e ratos.

Depois do Filme – Rio de Janeiro. Dia 20, quinta-feira, Teatro da UFES, 21h.

Dirigido, encenado e escrito pelo excelente Aderbal Freire-Filho, a trama apresenta um “personagem que se percebe nos seus últimos momentos de energia, criação, vitalidade e que não se conforma com o fim da vida (ou do filme)”.

Vale a pena assistir a esta encenação, que marca o retorno de Aderbal aos palcos, depois de anos dedicados somente à direção e à escrita.

Sua Incelença, Ricardo III – Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare (Natal/RN). Dia 21, sexta-feira, Teatro Carmélia, 20h.

A Cia Teatro Clowns de Shakespeare é conhecida pela sua proposta de adaptação das obras de Shakespeare ao contexto brasileiro, aos poetas populares ou, como preferem dizer: “um Shakespeare com sotaque nordestino, um Shakespeare com tempero potiguar”.  Daí, podemos esperar que algo inusitado com o Ricardo III inglês irá acontecer em terras capixabas. Só aguardar para conferir.

Moisés Nascimento é graduado e Mestrando em Letras pela UFES. Compositor, músico e professor de literatura. Atualmente é colaborador do Portal Yah! através do blog.

moyseshoots@gmail.com

Este 5 minutos sobre literatura contemporânea vem de terras lusitanas. Nosso comentarista Marcos Ramos fala brevemente sobre a vida e obra de um autor português chamado António Lobo Antunes (foto). Se você nunca ouviu falar, é bom conhecê-lo. Ou melhor, procurar a livraria mais próxima.

Infelizmente, por problemas técnicos durante a transmissão ao vivo do Programa Vice Verso – onde o quadro vai ao ar -, não será possível disponibilizar o comentário de Marcos Ramos em áudio, mas você pode conferir abaixo o comentário ao pé da letra:

Falo hoje de António Lobo Antunes (A. L. A.) porque me parece que este é um dos autores mais singulares da literatura atual.

O romancista português publicou mais de 30 livros. Entre eles, não raro, encontramos títulos no mínimo curiosos – cito: “Conhecimento do Inferno”, “Tratado das paixões da Alma”, “Eu hei-de amar uma pedra”, “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?”, entre outros não menos intrigantes. Os títulos com certeza provocam curiosidade.

Aproveitando o congresso de estudos literários que aconteceu na Ufes semana passada, cujo tema é a relação entre o autor e a obra, uma característica muita abordada pelos críticos leitores de A. L. A. é justamente essa relação íntima entre vida e obra. De uma maneira bem direta, essa relação é fácil de ser constatada nos livros “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”, ambos de 1979.

Antes, é bom esclarecer que António Lobo Antunes é médico psiquiatra e esteve na Guerra Civil de Angola como tenente médico do exército português, posteriormente exerceu a profissão de psiquiatra em Lisboa até 1985. Sua profissão e sua participação na guerra foram decisivas na escrita das duas obras citadas acima.

Em “Os cus de Judas”, A. L. A. escreve um personagem psiquiatra que esteve na guerra de Angola. O romance é feito das confissões e do testemunho das memórias da guerra entrecruzadas com pensamentos sobre o Portugal contemporâneo e o Portugal do passado – deixado pra trás ao ir pra guerra. Os vários tempos da narrativa se superpõem e constituem um texto bastante fragmentado. Tão fragmentado quanto o personagem que se sente, todo o tempo, sem lugar. O personagem não está na guerra, não tem mais o país que deixou e tampouco se reconhece no país que encontrou. Sofre do permanente sentimento de estrangeiro.

É um livro interessantíssimo.

Bom, apesar dessa justaposição personagem/autor, não acho que a autoficção seja a questão central na obra de A. L A.; creio que a sua obsessão pela linguagem seja o que mais atrai e constitua a medula de sua poética.  A escrita para ele é uma busca constante por uma linguagem que transforme não só o romance, mas o sujeito. Essa busca incessante leva muitas vezes a lugares um tanto sombrios no romance, a enorme polifonia que muitas vezes obnubila a leitura que se quer linear, por exemplo.

São muitas vozes justapostas e concorrentes pontos de vistas. A linguagem de A. L. A. parece anunciar em sua estrutura o próprio inconsciente – não seria de se admirar que essa procura fosse um horizonte produtivo para o autor, basta lembrarmos da sua formação psiquiátrica.

Essa obsessão muitas vezes chega ao paroxismo: em um de seus romances, A. L. A. simplesmente abandona um de seus personagens no meio da trama. Uma hora ele está ali e, em outra hora, não se fala mais no personagem. Simplesmente não temos mais notícias dele, ele deixa de existir.

O protagonista do romance, para Lobo Antunes, é a linguagem.

Lembro de uma entrevista em que A. L. A. afirma que um mau romance conta uma história, um bom romance não conta história nenhuma. Um bom romance conta-nos a nós mesmos. E os livros todos tratam de uma paisagem interior. Escreve-se para se constituir sujeito e lê-se pelo mesmo motivo. Para A. L. A., essa invenção de nós mesmos é um processo nunca terminado. Escrever e ler são, assim, procuras fadadas ao insucesso.

Deixo aqui a sugestão de “Os cus de Judas”, um dos primeiros livros de António Lobo Antunes e uma ótima porta de entrada para obra deste que sem dúvida é um dos grandes escritores de língua portuguesa.


Marcos Ramos é editor da Água da Palavra – Revista de Literatura e Teorias, poeta e pesquisador.

marcos@marcosramos.com.br

Na semana passada, Vitória foi palco da Seda – Semana do Audiovisual, que por meio de oficinas e mostras trouxe a atenção para as novas formas de circulação do audiovisual na rede. Inspirada pela temática, nossa comentarista de cinema Carolina Ruas fala sobre a força da imagem em movimento não só como cinema, mas como videoclipe, web tv´s e outras plataformas de exploração dessa linguagem, que, hoje em dia, encontra nos coletivos culturais um promissor espaço de expressão e criação.

Ouça o comentário clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

O comentário da Carol Ruas ao pé da letra você lê abaixo:

A sétima arte é mesmo cheia de particularidades. Cinema é arte tecnológica. E é indústria também. E por isso, ele se renova o tempo todo, de acordo com o avanço tanto da indústria quanto da tecnologia. Com isso em mente, vamos continuar falando de cinema – o conceito – sob o título de audiovisual, focando essa nova tendência em produzir, distribuir e exibir em rede.

A linguagem artística da imagem em movimento é tão ampla que no mundo contemporâneo já abarca novos formatos, como os videoclipes que surgem com força total nos anos 80 e até hoje permanecem como propulsores da indústria da música (quem melhor que Lady Gaga (foto) para lembrarmos de como a imagem é poderosa); nessa nova onda também entram o VJing, que traduz mais uma vez o diálogo entre imagem e música na figura do VJ, além das videoinstalações – forma de expressão experimental por meio do audiovisual-, as projeções mapeadas e tantos outros formatos que surgem a cada momento.

O que observamos com todos esses casos é que a particularidade tecnológica da imagem em movimento está sempre proporcionando novos arranjos, inclusive conceitualmente. No que se refere ao cinema contemporâneo brasileiro, hoje existe uma forte tendência em migrar para o modelo de produção coletiva.

Foi na busca por um espaço no mercado profissional do cinema que se formaram coletivos relevantes como o Alumbramento, do Ceará, e o Santa Madeira, de Santa Catarina. A ideia da direção coletiva, um grupo que pensa todas os enlaces do roteiro, desmistifica o filme do autor-gênio para chegar a ideia do filme enquanto construção coletiva, mas que ainda assim, mantém a característica da autoralidade. E isso tem proporcionado a sustentação desses projetos, em suma, produções de baixo orçamento, mas que tem se destacado entre a crítica e os festivais de cinema.

Mas o coletivismo se opera fortemente no eixo da distribuição do audiovisual, até então o campo de maior fragilidade para a indústria cinematografica e, ao mesmo tempo, também o campo de maior fluidez de expressões despretensiosas, principalmente com a asserção das redes sociais. Youtube, vimeo e outros canais já têm público garantido e permitem uma intensa circulação de produtos gratuitamente.

Mas como aproveitar esse aparato tecnoló-gico (e social) para valorizar (e remunerar) a figura do realizador/produtor? Em busca dessa organização e pautados pelo colaborativismo que as redes proporcionam, o Clube de Cinema Fora do Eixo é um exemplo a ser comentado. A ideia é simples: integrar os agentes do audiovisual do Circuito Fora do Eixo – que há seis anos trabalha a reformulação do mercado da música fortalecendo o cenário independente – se apoiando nessa estrutura para desenvolver ações.

A partir do colaborativismo e do livre compartilhamento dessa rede da música, o Clube de Cinema Fora do Eixo atua em diversas frentes, como a produção de videoclipes para bandas independentes, a produção de curtas-metragens colaborativos e a realização de turnês, como o média “Abel Contra o Muro”, que circulou por todo o interior de São Paulo, conectando cineclubes e coletivos de cultura ligados ao Fora do Eixo.

Além disso, uma das fortes e inovadoras ações do Clube de Cinema é a criação de uma distribuidora colaborativa, batizada de DF5, onde realizadores independentes disponibilizam curtas e médias-metragens para exibição online em um portal da internet, com direitos autorais cedidos para download gratuito. A DF5 possui centenas de arquivos no acervo e está sempre aberto para receber mais filmes, a custo zero, e proporcionando uma circulação dos produtos em mais de 80 pontos conectatos em todo a América Latina.

Em Vitória, recentemente, foi realizada mais uma ação do Clube de Cinema Fora do Eixo, a SEDA – Semana do Audiovisual. Somente este ano, o evento que conta com oficinas, mostra de filmes da DF5 e mesas redondas, aconteceu em mais de quarenta cidades de todo o país. Em Vitória, este ano foi o primeiro ano da SEDA, que teve como tema central do debate a discussão sobre o audiovisual pautado pelas tecnologias sociais e virtuais, que nos permitem aventurar por novos arranjos de produção, distribuição e circulação.

Carolina Ruas é jornalista, coordenodora de Comunicação do Fora do Eixo -ES e participante do Grav (Grupo de Estudos Audiovisuais – Ufes)

carolina.ruasp@gmail.com / @carolruas

Das obras de Beethoven (foto) ao mercado de astros pop. O papel do músico no decorrer dos anos mudou muito, e a relação da música com a sociedade também. Fernando Duarte traz em seu comentário um pouco da história cíclica da música, observa por que hoje é difícil se falar em mais em um milhão de álbuns vendidos e caracteriza as novas tecnologias como um espaço que abre portas para novas expressões  artísticas musicais.

Ouça o comentário clicando aqui (com a participação especial da professora Luciana Ucelli – “Tuca”).

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Leia abaixo o comentário de Fernando Duarte ao pé da letra:

Imagine que há pouco tempo só existia um jeito de ouvir música: estar perto de um músico. Em cerca de um século os discos, rádio, e todas as formas de se registrar e reproduzir um som gravado mudaram completamente o panorama da atividade profissional do músico e a relação de toda a sociedade com a música.

Ao longo dos séculos os músicos tiveram muitos patrões, formais ou informais. A Igreja deteve por séculos o monopólio sobre os melhores executantes, compositores, professores e teóricos. Com a ascensão financeira e social de outros grupos, como a nobreza e a burguesia, vieram novas necessidades e novos empregadores.

A história da música é cheia de relatos sobre as relações dos músicos com seus patrões. Bach trabalhou para Igreja Luterana e acreditava que toda sua música era feita na honra de Deus, Haydn serviu a um nobre, apresentando maravilhas para uma seleta plateia em sua residência de campo, e Mozart (foto) passou sua vida lutando para ser um autônomo e viver da renda de sua arte no mercado.

A compreensão da profissão do músico como um artesão, um técnico treinado para reproduzir os impulsos estéticos de uma classe superior muda com o pensamento romântico do século XIX. Beethoven é o grande exemplo do gênio que supera as dificuldades terrenas (como a surdez e a origem humilde) para trazer ao mundo obras impregnadas de características divinas. Obviamente, essa visão só pôde se estabelecer dentro de um mercado que possibilitava o trabalho autônomo e a remuneração por concertos e peças encomendadas.

A ideia do músico como o portador de um dom, um eleito intuitivo que traz dentro de si uma habilidade inata, só veio se reforçando com o tempo. Com o advento da gravação e o crescimento da importância da música popular, o século XX foi marcado pelas grandes estrelas da música, encaradas como semideuses caminhando entre os mortais. Paralelamente, o campo de atividade do músico profissional foi duramente diminuído, com a popularização dos mais variados aparelhos de som.

Hoje, o disco já é parte do passado e a perspectiva de enriquecer com a venda de álbuns é um conceito quase absurdo. Enquanto novas formas do artesanato musical (envolvendo computadores e programas de edição) abrem novos espaços de trabalho e expressão artística, o Estado, um antigo patrão, ganha forças através de projetos de incentivo cultural. E novamente o profissional se foca nas atividades que sempre foram as maiores geradores de renda para o músico: tocar e dar aula.

Fernando Duarte é musicólogo pesquisador, instrumentista, compositor e arranjador com passagem por vários grupos de choro, mpb, rock, jazz e pop. fernandond@gmail.com

É hora de teatro! Moisés Nascimento entra em cena no 5 minutos desta semana para abrir as cortinas da história do teatro brasileiro, trazendo no centro do palco do seu comentário, um pouco da vida e da obra do grande escritor, crítico e teatrólogo Luís Carlos Martins Pena (foto).

Ouça o comentário clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Quer saber mais sobre Martins Pena? Leia abaixo o comentário estendido de Moisés Nascimento:

Nascido e criado no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, Martins Pena (1815-1848) foi literalmente um homem do teatro. Conhecido por inserir no palco o cotidiano da corte carioca, bem como as diversas peculiaridades que caracterizavam a sociedade do seu tempo, o dramaturgo é considerado o “fundador do teatro nacional”.

Isso porque – ainda que o marco inicial seja historicamente dado à peça Antonio José ou O poeta e a Inquisição (1838), de Gonçalves de Magalhães (foto) – foi Pena quem primeiro representou a realidade brasileira na ribalta.

É interessante refletir sobre o momento histórico em que surge Martins Pena. Precisamente em 1836, com a revista Niterói, o Romantismo surgia na literatura brasileira como uma forma de busca pela identidade nacional, inspirado diretamente nas conquistas românticas já em curso em toda a Europa. Antes disso, em 1822, o Brasil tornava-se “independente” de Portugal pelas mãos de D. Pedro I (que, nove anos mais tarde, iria abdicar-se do Império). Ora, nosso dramaturgo nasceu em 1815, e todos esses episódios marcaram a sua formação enquanto cidadão e escritor. Do nascimento até a encenação de O Juiz de Paz na Roça (primeira peça encenada do dramaturgo), em 1838, Pena conviveu com uma sociedade brasileira que ansiava ser parte da tradição ocidental de forma independente, desvinculado do passado colonial lusitano.

É fato que essa tentativa de inserir-se a todo custo na tradição ocidental trouxe embaraços para o país em todas as ambiências: artística, cultural, econômica, política e social. Fico aqui apenas com um exemplo nas artes cênicas: a obra tida como marco inicial do teatro brasileiro (citada acima) foi escrita nos moldes clássicos, tinha a palavra “tragédia” como subtítulo e a história se dava em Lisboa; tudo isso num período em que a Europa vivia uma efervescência do drama romântico (sobretudo na França, dado o enorme sucesso do “prefácio” de Cromwell – Do Grotesco e do Sublime –, de Victor Hugo – foto) e a discussão sobre a identidade nacional estava em alta. Ou seja: havia, nos intelectuais da “independência”, o desejo de construir uma tradição diversa de Portugal, de inserir o debate da “nação” na ordem do dia do brasileiro; porém, se as condições culturais, econômicas e sócio-políticas já eram muito aquém das que se via no velho mundo, o que diremos esteticamente? Faltava, por parte dos nossos primeiros escritores românticos, a assimilação das novidades estéticas em voga na Europa. É só observarmos quão conservadora era a literatura feita pelos nossos primeiros românticos, recheada de classicismo arcaizante, com raros voos de qualidade.

Tais incongruências não ficaram de fora do olhar de Martins Pena, que, de forma aguda, tanto em suas peças quanto em suas críticas teatrais, “encenava” o Brasil da primeira metade do século XIX. Uma prova disso é que, designado para fazer a crítica dos espetáculos líricos no Jornal do Comércio, revela-se um profundo conhecedor não só de arte cênicas (que conhecia desde a prática teatral – cenário, representação, maquinarias – à sua história, sendo não raro seus incisivos argumentos a causa de grandes polêmicas no teatro representado na corte brasileira), mas também do panorama social, cultural e econômico do país. Abaixo seguem dois exemplos: o primeiro mostra sua preocupação com a estrutura cênica e o figurino; o segundo tece uma crítica sobre o fazer teatral da época:

(1)     …devemos advertir ao Sr. Mullot (Edgard) que ele foi da Escócia à França, onde se demorou algum tempo e voltou sem mudar de traje, e que, quando se apresentou no castelo de Asthon, tendo feito uma jornada sem descansar, nem um átomo de poeira trazia nas botas. (Folhetins)

(2)     Se não nos podemos guindar à lírica sublimidade ou à grandíloqua eminência da epopéia, fiquemos na rasteira e singela narração da verdade… Mas como, se a verdade aqui parece peta?… Como, se a verdade aqui, para não provocar indignação, carece de ser auxiliada provocando bom frouxo de riso? (Folhetins)

Se no primeiro comentário é possível ver como as cenas de amadorismo, de inverossimilhança não passam despercebidas ao crítico, no segundo ele mergulha não se limita apenas a uma discussão cênica, mas debate também para a realidade social da corte carioca. Em poucas linhas, Martins Pena discute a falta de companhias teatrais capazes de elaborarem espetáculos líricos sofisticados (vale recordar que a “comédia” era tratada como um gênero menor) e a ambivalência da verdade no Brasil do seu tempo, que mais se assemelhava a mentira (peta), somente podendo ser dita através de boas risadas.

Essa visão aguda já tinha sido demonstrada na peça O Juiz de Paz na Roça. Vejamos um trecho da fala do juiz, presente na cena IX:

[...] (batem à porta) Quem é? Pode entrar. (entra um preto com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao Juiz. Juiz, lendo a carta) “Ilmo. Sr. – Muito me alegro de dizer a V. Sa. que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V. Sa. pelos circunlóquios com que lhe venero”. (deixando de ler) Circunlóquios… Que nome breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (lendo) “Tomo a liberdade de mandar a V. Sa. um cacho de bananas-maçãs para V. Sa. comer com a sua boca e dar também a comer à Sra. Juíza e aos Srs. Juizinhos. V Sa. há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sa. fará o favor de aceitar as bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser – Manuel André de Sapiruruca”. – Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para o teu tabaco. (sai o negro) O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. [...]

Para além do efeito cômico presente na cena, há aí uma crítica social profunda. O Juiz de Paz…, “tão camponês como os outros, mas cooptado pelo poder”, “utiliza a justiça em benefício próprio”, trabalha como quer, “faz uso de aparelhos governamentais como propriedade privada”, etc. Percebe-se que, através do “riso frouxo”, Martins Pena aí encena os absurdos, debilidades e fraquezas da sociedade brasileira.

Longe de seguir “a típica cultura ornamental da época”, conforme observa Vilma Arêas, Martins Pena busca “uma tomada de consciência de um momento da história de nosso país, que recém adquiria uma limitada independência”, e tenta “pensar criticamente nossa cultura, com as restrições que o contexto impunha ao trabalho intelectual”. Desvencilhando-se da tradição clássica, das comédias francesas, do teatro lírico e do melodrama, e criando uma nova comédia com traços muito pessoais, é possível afirmar que Martins Pena construiu um teatro de resistência, desfocado dos intelectuais burgueses do seu tempo. Sem sombra de dúvida, sua obra possui um significado ímpar na história do teatro brasileiro.

Fontes de consulta:

Arêas, Vilma. “A comédia no Romantismo brasileiro: Martins Pena e Joaquim Manuel de

Macedo”. In: Revista Novos Estudos. V. 76. São Paulo: CEBRAP, 2006, p. 197-217.

_________. Iniciação à comédia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

_________. (Org.) Martins Pena: comédias. 3 volumes. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

_________. Na tapera de Santa Cruz. São Paulo: Martins Fontes, 1987

Moisés Nascimento é graduado e Mestrando em Letras pela UFES. Compositor, músico e professor de literatura. Atualmente é colaborador do Portal Yah! através deste blog. Fale com ele: moyseshoots@gmail.com

Na próxima segunda-feira (12 de setembro), um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira completaria 63 anos, se estivesse vivo. Seu nome é Caio Fernando Abreu (foto). Jornalista, dramaturgo e escritor, com obras que marcaram as décadas de 70, 80 e 90. O comentarista Marcos Ramos lembra a importante data, fala um pouco sobre a escrita do autor e aproveita para convidar novos leitores a mergulharem nas histórias de personagens tão próximos, criados por Abreu para acertar nossas vidas em cheio.

Para ouvir o comentário, clique aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Leia abaixo o comentário de Marcos Ramos ao pé da letra:

Caio Fernando Abreu foi – e, muitas vezes, volta a ser –, um autor especialmente importante para minha aproximação com a literatura; e importante, sem dúvida, para minha maneira de pensar a escrita literária. Caio habita um lugar muito interessante: há a escrita cárnea e indelével do corpo que queima o cigarro no peito, do movimento de busca que é incessante, do estrangeiro que não fixa ou consolida em um lugar, do pensamento que recusa uma causa, o partidarismo, mas não se furta ao desespero, a depressão, a solidão, apesar da amizade; a rispidez, apesar da tolerância. Sua escrita, além disso, é um corpo urgente que não recusa a paciência do cuidado.

Caio não é o escritor desatento que deixa a escrita ser vencida pela história, tampouco dono de uma escrita que se encerra em si mesma. A imagem que aponta a partir dos textos ficcionais, das cartas, dos relatos, é um Caio profundamente múltiplo. Uma multiplicidade que grande parte da crítica vê como influência tropicalista, mas vejo simplesmente como a escrita da dimensão do humano.

Quem percorrer a obra de Caio verá como está imersa em referências que oscilam entre o pop e o erudito, o massificado, a vanguarda e a contraculturaBeatles, Cazuza (foto) e Erik Satie, juntos. Caio entrou em todas as estruturas e saiu de todas as estruturas. Era budista, católico, místico, bruxo e não era nada disso. Passeava. Acreditar, realmente, talvez só na escrita como possibilidade de sobrevivência.

Caio escrevia obsessivamente. E diferente de grande parte dos escritores, Caio não conseguia, aparentemente, se livrar das obras e terminá-las. A obra de Caio está sempre por fazer. O que temos é um processo. Os textos foram, várias vezes, revisitados e modificados: edições diferentes, títulos alterados; um processo que foi fatalmente interrompido devido a sua morte.

Em perspectiva, vejo a obra de Caio dividida em pelo menos dois momentos. Um primeiro momento, de 1970 – quando publica seu primeiro livro “O inventário do irremediável” – até 1975 – quando publica “O ovo apunhalado” –, sua obra é marcada por uma forte influência da literatura hispano-americana, uma influência fortíssima de Clarice Lispector (foto), é um período marcado por muita experimentação e as narrativas estão quase sempre em um ambiente subjetivo. Com a publicação de “Morangos Mofados”, em 1982, seu livro mais popular, outras questões passam a habitar o texto de Caio. A falência de uma tradição moderna – das rupturas e das utopias, por excelência –, a quase impossibilidade dos laços afetivos, a sexualidade latente – quase sempre representada pelo homoerotismo –, a precariedade do corpo e a morte. A narrativa caminha cada vez mais para um ambiente hegemonicamente urbano e fluido. O fluxo das grandes cidades é determinante.

Nos últimos anos, contos, romances, crônicas, peças e até seu extenso volume de cartas têm sido publicados, reeditados e revisitados. O crescente interesse na obra de Caio tem deslocado o recorrente olhar de literatura gay (para gays), literatura de gueto, para um olhar universalizante. Ao contrário do que garantiu a escritora Márcia Denser (foto) em um famoso texto sobre Caio, ele tem sido cada vez mais descoberto não como um escritor de gênero, mas como um escritor que, por meio da escrita, muitas vezes, dos afetos homoeróticos, alcança a universalidade abstrata do laço afetivo, e do humano. Caio é, afinal, um grande escritor.

Caio Fernando Abreu nasceu no interior do Rio Grande do Sul em 1948. Publicou nos anos 70, 80 e 90. Morreu em 1996, vítima da Aids.

Marcos Ramos é editor da Água da Palavra – Revista de Literatura e Teorias, poeta e pesquisador.

marcos@marcosramos.com.br

O terror ainda é pouco explorado pelo cinema brasileiro. Posso arriscar que um dos maiores divulgadores do gênero seja José Mojica Marins, vulgo Zé do Caixão, e suas mais de 30 obras de horror. Mas Mojica inspirou novos cineastas. E um deles está roubando a cena no Espírito Santo, desde 2008: Rodrigo Aragão (foto). Para a jornalista Carol Ruas, nossa comentarista de cinema, ele pode ser considerado a zebra da sétima arte capixaba.

Quer saber por quê? Ouça o comentário completo clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira, ao vivo, dentro do Programa Vice Verso, de 20 as 21h, na rádio Universitária FM 104.7. Ouça pelo site.

Tem mais 5 minutinhos? Então leia abaixo o comentário da Carol Ruas ao pé da letra:

Às margens de um paraíso praiano, na aldeia de Perocão, em Guarapari, vive Rodrigo Aragão. Apesar da inspiração do local, não se trata de um surfista, nem de um pescador, mas sim da recente bem sucedida – e rara – experiência do cinema de horror capixaba.

Rodrigo Aragão é autor de “Mangue Negro”, longa-metragem todo gravado em vídeo, que vem mobilizando uma legião de fãs, desde seu lançamento, ainda em 2008. A trama se concentra em uma vila de pescadores que é infestada por zumbis diante da degradação ambiental.

Poderia ser o enredo de qualquer filme trash de péssimo gosto e qualidade duvidosa, como milhares feitos mundo afora. Mas não é. A história bizarra vem de uma forte paixão do diretor por filmes B, pelo grotesco e cenas que tenham carnificina na tela – e os 700 litros de sangue cenográfico é um recorde para o cinema brasileiro. Rodrigo Aragão, porém, revelou-se um grande artista do cinema de gênero – raridade em todo o país.

Essa segmentação, aliado a uma técnica impecável do autor (Rodrigo é artista plástico e expert em maquiagem cenográfica), fez com que o filme, numa velocidade incrível, chegasse à Alemanha, à China e em dezenas de países mundo afora.

Se falássemos em futebol, essa seria uma zebra, sem sombra de dúvida. A facilidade de movimentação pela internet fez a ideia se espalhar e de repente, a pequena produtora do Perocão projetou o nome do diretor nos principais festivais de gênero do mundo: Fantaspoa, Rojo Sangre (Argentina e Chile), Rio Fan, etc.

E o grande trunfo da então proclamada “Fábulas Negras Produções” é que Rodrigo Aragão não utiliza nenhum recurso vindo de edital público. Todas as produções feitas no Perocão (Rodrigo já havia feito vários curtas antes do primeiro filme) têm o orçamento baixíssimo, tudo gravado em vídeo e ainda assim com uma qualidade invejável. “Mangue Negro” gastou humildes 70 mil reais para ser produzido; e esse dinheiro veio de patrocinadores da região do Perocão. Para se ter uma ideia da pechincha, um filme de médio porte no Brasil custa, no mínimo R$ 3 milhões.

Rodrigo Aragão é o exemplo de que para fazer cinema é preciso talento e dedicação. O que vier, além disso, é lucro. Usando o próprio quintal e envolvendo a sua comunidade amadora, o diretor conseguiu criar esse que já é um clássico do cinema de horror capixaba. E ele continua filmando. A sequência de “Mangue Negro” é “A noite dos chupacabras”, que foi finalizado recentemente e já esteve circulando pelos festivais do Brasil, como no Rio Fan (RJ) e no Fantaspoa (RS). Recentemente, o segundo longa de sua carreira foi exibido na Mostra Cine Terror na Praia, em Guarapari, evento criado pelo próprio Rodrigo Aragão para movimentar a comunidade.

A “Noite dos Chupacabras” ainda deve estrear nos festivais de cinema de Vitória até o final do ano. Estamos ansiosos.

Veja abaixo os cartazes oficiais de “A noite dos chupacabras”:

Assista ao trailer do filme “A noite dos Chupacabras” clicando aqui.

Assista ao trailer do filme “Mangue Negro” clicando aqui.


Carolina Ruas é jornalista, coordenodora de Comunicação do Fora do Eixo -ES e participante do Grav (Grupo de Estudos Audiovisuais – Ufes)

carolina.ruasp@gmail.com / @carolruas

Você tem o hábito de parar tudo o que está fazendo para ouvir música? Simplesmente para apreciar cada um dos seus instrumentos e arranjos? Na era do mp3, a mobilidade sonora permite que gigabytes de discos ou arquivos de áudio sejam carregados para qualquer lugar e sem muito esforço. A forma como a música é consumida mudou (para melhor ou pior não sou eu quem vou dizer, vocês decidam) e, consequentemente, alterou-se a relação dela e o ato de ouvi-la. O comentarista Fernando Duarte abre os nossos ouvidos para o assunto em seu comentário.

Então, quer ouvir? Vamos lá, prepare o seu fone de ouvido e dá o play clicando aqui.

O quadro 5 minutos é exibido toda quarta-feira no Programa Vice Verso, na rádio Universitária FM 104.7, de 20h as 21h, ouça pelo www.universitariafm.com.br

Curtiu? Deixe o seu comentário. O comentário ao pé da letra de Fernando Duarte você confere abaixo:

Você ouve música? Conhece alguém que não ouve música?

A música é tão presente no nosso cotidiano que essas perguntas até parecem estranhas. É praticamente impossível imaginar um mundo sem música, ou alguém alheio a ela. As tecnologias que proporcionam novas formas de distribuir e ouvir discos, faixas isoladas, podcasts e rádio são o auge de um processo que democratizou o acesso e alterou nossa relação com a produção fonográfica.

O fato é que o significado de ouvir música mudou muito. Hoje toda a nossa vida tem uma “trilha sonora”, seja em qualquer reunião de amigos, na ida para o trabalho ou na hora de lavar a louça, e muitas vezes nem nos damos conta. Antes o espectador tinha que ir até o lugar onde a música estava e hoje ela chega até nós, o tempo todo.

A mudança do espaço físico está diretamente ligada com a função social. Ir à Ópera, fechar os olhos para ouvir um coro na Igreja e se juntar a uma roda de canto e dança numa festa de rua são parte de experiências que vão muito além do musical. Hoje podemos ouvir cantos rituais das mais distantes tribos, sem sair do sofá de casa, mas certamente isso não quer dizer que estamos participando dessas cerimônias.

Outro aspecto é a individualização da experiência. Se há séculos era preciso ir até a Igreja ou ao teatro para ouvir os músicos tocando ao vivo, há poucos anos ainda era hábito reunir amigos para escutar um disco novo. Hoje o mais comum é usarmos solitariamente nossos fones de ouvido, o que além de nos privar da experiência comunitária, nos ensurdece para os sons ao redor. Selecionamos ouvir o que já conhecemos, sozinhos e muitas vezes sem preocupação com a qualidade do som. Hoje já não se discute tanto a taxa de compressão do mp3 (que se estabeleceu como formato padrão na internet) e parece que foi há séculos que as pessoas se preocupavam em conhecer alto-falantes, equalizadores, filtros e melhorar seus aparelhos de som domésticos.

A experiência da música pode ser das mais sublimes, e é ótimo que hoje ela seja tão acessível e portátil. Mas separar um tempo do dia para ouvirmos com atenção, num local adequado e com a melhor qualidade possível pode ajudar a aumentar ainda mais o nosso prazer. E sempre procurar conhecer sons diferentes e estar prontos para reconhecer que mesmo um gênero que não nos agrada tem qualidades.

Fernando Duarte é musicólogo pesquisador, instrumentista, compositor e arranjador com passagem por vários grupos de choro, mpb, rock, jazz e pop.

fernandond@gmail.com

www.myspace.com/fernandonduarte