dez
15

Balés desconfortantes: espetáculo “Sonata para despertar”, do grupo Repertório Artes Cênicas

Se pudesse resumir a ideia de dança-teatro em uma só frase, valer-me-ia da que a bailarina brasileira Regina Advento, integrante da Cia Tanztheater fundada por Pina Bausch, proferiu numa entrevista: “o que mais me impressionou foi que eles não eram bailarinos em cena, eram pessoas”. Tal definição é formidável, pois resume bem a visão de arte que a idealizadora do grupo possuía. Pina nunca pensou a dança-teatro centrada somente nesses dois eixos que o nome evoca, mas correlata a outras manifestações artísticas. Nos seus espetáculos, a literatura, a música, o teatro, a dança eram convidados ao palco. Mais do que isso, no palco, “pessoas” cantavam, encenavam, dançavam… Sem sombra de dúvida, uma revolução estética.

Escrevo isso com o intuito de situar o espetáculo de dança-teatro Sonata para despertar, do grupo Repertório Artes Cênicas, interpretado pela excelente Roberta Portela e dirigido por Antonio Apolinário – integrante da Cia paulista São Genésio, que já trabalhou com o Repertório no espetáculo “Peroás e Caramurus”. Não houve uma revolução. Mas a encenação é digna de nota. Primeiro por tratar-se de um grupo preocupado em construir uma linguagem singular, um projeto estético, ao qual, inclusive, já é possível recorrer em alguns pontos – ainda que seja cedo para esse tipo de diagnóstico. Segundo, porque a agonia do “novo”, de experimentar, de construir espetáculos compromissados não apenas com a fruição, entretenimento, mas, indo além, com a indagação, o questionamento, o pulsar é sempre evocada. Há na Cia Repertório o desejo pelo “desconforto”. E isso é bom.

Sonata para despertar não decepciona. Livremente inspirado no conto “Nunca é tarde, sempre é tarde”, do escritor Silvio Fiorani, o espetáculo encena o cotidiano, sobretudo o que está escamoteado, opaco, sedado pela rotina:

“nem bonita, nem feia. Secretária”, diz a personagem.

Entre o acordar e o deitar, vários mundos se despertam. Ao dia, à brutalidade do dia: a secretária, a mulher em sua forma bruta desprovida de quaisquer direitos. Dormir, acordar, tomar café da manhã, organizar o dia, são coisas as quais ela desconhece completamente. À noite, ao onírico, ao sonho, ao outro lado da rotina, no outro mundo: a bailarina disforme, descompassada da realidade petrificada que a cerca. E nessa ambivalência – sonos e sonhos, realidade e real, acordar e dormir, secretária e bailarina – o paradoxo instala-se como um corte agudo nas paredes que sedimenta a rotina. Ressalto aqui a excelência cênica de Roberta Portela. Uma atriz completa, forte na expressão, que passa segurança e firmeza, perfeitamente enquadrada na categoria de “pessoas” que dançam e encenam. As cenas em que bailarina e secretária se confundem são de uma agonia latente, um horror melancólico, que outra coisa não faz senão deslocar o espectador das zonas de conforto.

Espetáculo de profundo interesse, Sonata para despertar apresenta mais uma vez o grupo Repertório na frente, com qualidade e precisão dignas dos grandes palcos. Ressalvadas algumas linearidades cênicas, que quase me enganaram – o “falso” final do espetáculo que induziu a plateia a aplaudir, mas que em mim criou um dissabor, que pensei: “se acabar assim, o espetáculo terá perdido uma grande oportunidade de não-linearidade”. Mas isso não aconteceu.

É isso.
Moisés N.

jul
14

eu já conversei com o Antonio Candido!

Na semana passada, Antonio Candido arrancou risadas e aplausos da plateia que foi à Feira Literária de Paraty-RJ. Com quase 93 anos, o mestre apresentou um belíssimo relato sobre a sua amizade com Oswald de Andrade.

No final de 2010 entrei em contato com Antonio Candido, convidando-o para ser homenageado no Encontro Latino Americano de Estudantes de Letras na UNB-Brasília. Na ocasião, ele declinou do convite por recomendação médica e da idade.

Mas a FLIP ele foi. E com razão, até porque trata-se de um dos últimos sobreviventes da geração de Oswald de Andrade, e nossa geração precisava ouvi-lo.

Reproduzo aqui, portanto, o diálogo curto que tive com o mestre por telefone já, inclusive, publicado em outra ocasião. Mas que, creio eu, merece ser novamente lido.

É isso.
Moisés N.

————-

Antonio Candido -”Alô..”

Moisés Nascimento -”É o mestre Antonio Candido?”

AC – “Quem é que tá me gozando?”

MN -”O mestre…não tô gozando não…aqui quem fala é Moisés Nascimento. Sua filha lhe falou do encontro latinoamericano de letras?”

AC – “sim. É que eu sempre pensei que é algum conhecido que tá me gozando. Quando me chama de mestre, eu sempre digo como Capistrano de Abreu: não sou mestre de ninguém”.

MN -”Pois então. Eu e um grupo de amigos estamos organizando o 1º encontro latinoamericano de estudantes de letras na UNB..

AC – “em brasília”.

MN – “isso. E eu sugeri o nome do senhor como homenageado do evento. E gostaria de saber se o senhor aceita a homenagem e topa ir a brasília recebê-la”.

AC -”Olha. Eu fico muito honrado com o convite. Mas eu não viajo mais. Tenho 92 anos e o médico me proibiu de viajar. Não vou nem ao Rio de Janeiro, onde tenho parentes. Eu parei de dar conferência, de escrever artigo. Portanto, acho melhor vocês homenagearem alguém que possa estar presente no evento e falar para vocês”.

MN – “Tá ok então, mestre”.

AC -”Quero que você diga aos seus companheiros que fico muito sensibilizado com o convite”.

MN -”Pode deixar que direi sim, mestre. Eu queria lhe dizer que o senhor é meu objeto de estudo, de pesquisa, na pós-graduação. Desde a graduação estudo a sua obra”.

AC - ”Eu fico agradecido [sic] porque eu sempre digo que sou professor. Minha vida como escritor, crítico [sic] é secundário. Antes de tudo, sou professor. Por isso que fico honrado, e sempre que posso vou aos encontros de estudantes, porque sou professor [sic]“

MN  - “Foi uma honra falar com o senhor, tá bom?”

AC – “Tá bom. Xau”

mai
24

O que é liberdade?


*Dedico este texto a minha irmã Ana Ramos

O que é liberdade? A pergunta em sua singeleza já carrega toda a complexidade que a cerca. Diferente de outras, a palavra “liberdade” em si só não se sustenta. Na utilização diária, ela precisa sempre ser seguida por um “de” ou um “para”. A frase “eu tenho liberdade” é sempre uma [re] afirmação de domínio, de potência, de possibilidade para algo. Diferente de outras que percorrem o nosso cotidiano, a palavra “liberdade” não aparece, não se apresenta sem o acompanhamento – ainda que implícito – da preposição. E não estou aqui dizendo coisas novas. Desde Platão, a liberdade só pode ser pensada a partir da prisão. Para se dizer “estou livre” é necessário um ambiente ou situação de claustro; somente após o rompimento das amarras do cárcere é que o indivíduo consegue afirmar a condição de “liberdade”.

Uma observação rasteira pelos dicionários e dizeres populares já nos mostra o quanto esta palavra é vigiada: minha “liberdade” ou “direito” de fazer/proceder como desejo/quero precisa necessariamente não ser um problema para a liberdade/desejo/direito do Outro. Há um controle social que não só condiciona os rumos, mas, sobretudo, as formas de “liberdade” que o indivíduo pode/deve ter.

Numa situação de desinteresse, de mera execução de coisas e tarefas, a “liberdade” não é pensada nem questionada. Enquanto estiver a vontade no seu ambiente diário – trabalho, família e lazer, enquanto a rotina não lhe trouxer problemas, o individuo vive em perfeita harmonia. É necessariamente no desconforto, na intranqüilidade, na não adequação a um conjunto de regras que a “liberdade” passa a ser reivindicada.

Vejamos o caso de seu Carlos. Ele trabalha com estofado de automóveis; é capoteiro numa grande empresa de ônibus. Neste emprego e na profissão está há mais de 20 anos. De segunda a sábado ele se levanta às 06 horas da manhã; toma banho, coloca o uniforme, monta na bicicleta (“economizar no vale pra filha ir pra escola”), chega ao trabalho às 07h, toma café e papeia um pouco com os colegas, ajeita a botina, dá uma geral na capotaria, verifica as demandas do dia e começa a trabalhar às 08. Aos sábados, depois das 5 da tarde, vai com os companheiros de trabalho no barzinho ao lado da firma e por lá fica até umas 9 da noite. Depois, meio cambaleando, segue na bicicleta até sua casa, onde sua esposa já está a sua espera com a toalha no ombro e o encaminha direto pro banheiro. Banho tomado, o jantar está servido; Carlos só tem o trabalho de se sentar e degustar. Feito isso, vai à sala e fica alguns minutos na frente da TV apenas a espera do sono. Já são 20 anos de puro hábito. Carlos não tem do que reclamar no trabalho, não tem do que reclamar dos amigos, não tem do que reclamar em casa. “É tudo tranqüilo”.

No entanto, depois de 20 anos de bom funcionamento, a firma resolve não mais pagar “horas-extras”. Em contenção de despesa, haja vista a crise na Espanha e na Grécia, bem como a instabilidade no mercado petrolífero em função do ataque a Kadafi na Líbia, os patrões resolveram que de agora em diante a solução é montar um banco de horas. Todos continuarão trabalhando além da conta, mas não receberão por isso; a partir da quantidade de horas trabalhadas, uma folga será dada no meio de semana – mas somente nas terças, quartas e quintas-feiras.

Seu Carlos fica ressabiado, não gosta da informação, e percebe que a picanha mensal precisa virar maminha, que o bife semanal precisa ser acém, que o feijão pode ter um pouco mais de água pra render, que a filha podia muito bem estar trabalhando ao invés de somente estudar e gastar seu vale-transporte, que a esposa podia arrumar alguma coisa pra fazer – afinal, limpeza da casa, comida e roupa lavada é direito dele e obrigação dela; ta na hora arrumar um trabalho e contribuir no orçamento familiar.

A filha acha as atitudes do pai um absurdo; ela promete arrumar um emprego não para ajudar no orçamento da casa, mas para ter sua “liberdade” comprar suas coisas, morar sozinha, seguir a vida. A mãe passa a refletir sobre os últimos 20 anos e começa a achar que não viveu um deles sequer, que sua vida fora sempre enclausurada, fazendo tudo o que Seu Carlos pedia e queria. E seu Carlos pensa que é escravo de todo mundo: do patrão, que não reajusta seu salário há anos e ainda arranja um meio de diminuí-lo; da filha, que não trabalha, mas come, bebe, estuda e dorme nas suas custas, e da esposa, que não faz nada (obrigação é obrigação!).

Independente dos pormenores e paradoxos que aí aparecem, percebam que foi a partir da não adequação, da quebra da rotina que velhas estruturas passaram a ser questionadas. No caso acima, são situações bastante rotineiras, por vezes cômicas e antiquadas. Mas o que interessa de fato aí é a percepção de que somente quando se expõe o hábito, somente quando se vê sua desproporção em face da realidade que o indivíduo começa a questionar se de fato é uma pessoa “livre” ou não. A condição de liberdade, seja pra andar, correr, brincar, trabalhar, estudar, só se torna uma questão quando há um baque na rotina.

Quando as balizas que asseguram o hábito e lhe garantem a permanência são quebradas, o indivíduo está apto para habitar o mundo. Os choques que geram, todavia, assim acontecem apenas quando essas quebras não são um exercício diário – e a quebra aqui em nenhum momento refere-se a um acontecimento de fora, metafísico, mas, sim, na própria ambivalência que a rotina e a liberdade apresentam. É somente quando o indivíduo exercita a reflexão sobre a própria existência que a “condição de liberdade” passa a estar na pauta do dia.

Olhando para a realidade do Seu Carlos, poderia até ser dito que a “condição de liberdade” ali ainda se assenta em bases simples, que não são grandes questionamentos e quebras.

Então que se pergunte “o que é liberdade?” a uma pessoa que está no sistema carcerário há 30 anos, condenada a prisão perpétua e, portanto, a nunca mais sair daquela arquitetura decorada por cimentos e grades; pergunte a uma moça que é violentada pelo pai, mãe, padrasto ou madrasta desde os primeiros anos da infância, que só agora, com 16 ou 17 anos, o caso veio a público e o crime foi constatado; pergunte a uma mulher que vive enclausurada numa residência com um marido perverso, monstruoso, que a agride na frente da filha e a ameaça de morte caso tente se separar dele há mais de 10 anos.

Para todas essas perguntas, a resposta só vai existir a partir do momento em que o Eu se colocar num espaço-olhar Outro, deslocado da rotina e questionando-a. Ali, todos – o condenado a prisão perpétua, a adolescente violentada, a mulher agredida, ainda que não tenham possibilidade de naquele instante estar fora daquela realidade atroz e condicionadora, poderão refletir sobre a “condição de liberdade”. Neste espaço ambivalente, neste entre-lugar, que é tão doloroso quanto, porém é só nele que se pode constatar a perversidade do encarceramento, a liberdade surge como uma possibilidade, como um caminho para o sol.

É isso.
Moisés N.

mai
11

Um recadinho só.

Faz um favor pra mim? Avisa praqueles meninos que não vejo problema nessa exótica demonstração de amor pela manifestação musical popular que mais representa o Brasil mundo afora. De fato, desde aquele telefonema do Donga, a coisa cresceu, subiu e desceu o morro, ganhou o asfalto, fez um monte de amigos e peripécias. É claro que acredito na reivindicação baiana, de que ele é fruto, sobretudo, do Recôncavo, um sincretismo em que se encontra a dança africana, a escravidão brasileira, os batuques e tambores das religiões de matizes africanas e por aí vai… Mas sei também que ele só chegou nesta tão grande aceitação e popularidade – e quando falo popularidade, falo de mídia, falo das classes médias e altas brasileiras também degustando o produto – mediante a transformação operada nele pelo Rio de Janeiro do finalzinho do século XIX. Mas isso não vem ao caso. O que de fato conta é que ele “se modernizou”, aos poucos foi deixando de ser coisa somente de malandro, de boêmio, começou a ser bem quisto pela branquelada e passou a desfilar pelos “salões” principais “da sociedade”.

Teve até uns playboyzinhos do final da década de 50 que o amaram bastante. Mas por não quererem estar associados à raia miúda – talvez por morarem na zona sul – fizeram a partir dele um produtinho bem genérico, repleto de influências de um primo gringo que, embora também fosse das lutas, fruto de um mundo escravagista e nada simpático com a ala escura do planeta, por aqui era visto como algo sofisticado, puro feeling, o que há de melhor na música de lá.

(acredito eu que muito dessa discussão se é de raiz ou não vem desse lado branco aí da história. Só observar de onde vem esse papo furado. Nunca vi os que são do beco da tristeza com esse argumento esbranqueado de “samba de raiz”. Por acaso o samba é alguma batata?)

Muitas águas, inclusive as de “março”, rolaram bastante de lá pra cá. Dessa elitizada aí, muita coisa boa saiu. No entanto, os lugares onde a criança mais educada fora – Estácio, Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro, São Carlos, Serrinha – continuariam na rebarba caso garotos como o de Botafogo não fossem lá resgatar a luz daquelas escolas que brilham tanto quanto candeia. E é dessa geração, que se pode dizer que o da viola foi um dos pilares que a tornou sublime, que saiu a “semente” de tamarineira plantada em Ramos.

Avisa pros meninos que aos galhos dessa árvore, desde o final da década de 70 até os nossos dias, todo mundo deve: do alfaiate ao sargento, do delegado ao peixeiro, do malandro ao polícia, do Estácio a Lapa. A criança só cresceu, só ficou bombada e vistoso porque ali tinham pessoas totalmente diversas da playboyzada, com desejo e disposição de fazer (novamente à margem) uma arte que de fato caracterizasse a tradição recebida do Recôncavo, do Rio de Janeiro dos primeiros anos do século XX. Parecia ser uma forma de dizer: “olha… legal as coisas e as bossas terem ganhado tanta notoriedade nos rádios, jornais, revistas e TVs, mas o buraco do moleque é outro”. Ali, a criança cresceu, e o boom todo que hoje vemos se deve a todo esse processo.

Deve-se aos “bambas” do início? Claro. Mas também – e eu diria: sobretudo – aos garotinhos de cabelo amarelo e óculos colorido que, mesmo sabendo que o mercado lá de baixo não era feito pra eles, desceram o morro com cavaco, pandeiro, tantã, surdo e repique, e criaram uma vertente da criança que a crítica teve que se virar para entender (e de fato não entendeu, pois chamou de “pagode” aquilo que é samba. Quem é da roda sabe que o samba só existe e se efetiva de fato no “pagode”). Eles, de forma bem diversa dos da década de 50, sempre mantiveram o laço e o apego à tradição, tornando-a muito mais sólida e forte, entende?  Basta observar o quanto são zelosos e amorosos com as suas origens, seus mestres e a Escola do coração.

Avisa aos meninos, portanto, que não vejo problema nessa exótica demonstração de amor pela manifestação musical popular que mais representa o Brasil mundo afora. Ela de fato é isso, só que bem mais. É preciso estar atento ao vigor que ela própria manifesta quando dribla adversidades impostas por mares tão contrários – durante anos! – apenas para ser o que é. Se teve de breque, canção, chic, decente, de enredo, de morro, jazz, pagode, rock, foi apenas para mostrar que a despeito de tudo isso é o samba quem ali está presente.

O que não pode faltar, todavia, é o respeito. Parece que os meninos, além de reivindicarem a tal da raiz, acham que as coisas podem ser feitas de qualquer jeito, que todo mundo pode ir chegando – passando a mão no pandeiro, no tamborim, no reco-reco, no tantã com aquela falta de cadência que Deus me livre – e tocando sem nenhum compromisso e conhecimento. Não é bem por aí. Todo instrumento possui história e ancestralidade; e para botar a mão nele é preciso no mínimo carinho, cuidado, devoção e vivência.

Ahh… E por favor: nada de surdo na primeira, ok?

É isso.

abr
29

Ahh velhice…tenho medo…

Tenho medo da velhice. Não me preocupava com isso na infância, nem na adolescência. No entanto, ao passo que os anos foram me vindo, fico, e vou ficando, receoso, pois me parece este um ciclo estranho.

E aqui, nesse refletindo sobre, lembro de um tempo da infância, lá pelos 3 ou 4 anos, em que subitamente fui colocado num carro junto com minha mãe, meu tio Gessy e um moço estranho no volante. Estava escuro, imagens desfocadas e geométricas subtraíam minha visão pequenina.  A sensação era ruim, ninguém sorria; poucas palavras se faziam presentes. Eu era levado para um lugar estranho, do qual não tenho muitas lembranças. Recordo que em algum instante a noite se fez dia, dia nublado. Várias pessoas reunidas; um clima funesto e opaco parecia fazer a recepção. Alguns poucos olhares se curvavam ao garoto deitado no colo da mãe, talvez nada compreendendo e um tanto deslocado naquela cerimônia.

Da vovó Emília, mãe do papai, pouco conheci. A única lembrança que dela tenho foi da que aconteceu na sua casa de palafita no bairro Santa Fé em Cariacica (“Fecho os olhos e me vejo entrando no quintal. Vovó, sentada à porta num longo banco de tronco de árvore, com um lindo sorriso no rosto, me entrega um caminhãozinho amarelo e azul”), lembrança boa.    

No entanto, essa memória foi abruptamente substituída pela anterior, a do carro com a mamãe, o tio Gessy e o moço estranho no volante. Ali, era vovó que partia, partia sem eu tê-la conhecido muito. Só soube disso anos depois, quando meu avô, da vovó Emília, partiu – acho que em 95.

Eu não era muito próximo ao vovô, até porque era uma criança pobre, moradora da Serra (naquela época, ir a Cariacica era uma viagem custosa). Ele também passou por vários AVCs, já não conseguia falar direito – só balbuciava; visitá-lo era sempre tenebroso, pois eu, criança de 06,07, 08, 09 anos não estava acostumado a lidar com aquele tipo de ser humano (imagine o que é uma criança ver todos a sua volta falando normalmente e, numa visita a casa dos parentes, passar por esse choque.  Meu avô dava urros, sacudia os braços; por último, só ficava na cama).

 Mas era a única peça acima dos meus pais que existia. E ele morreu. Chorei muito, muito. Na escola, a professora me mandou voltar para casa. Meus colegas ficaram contritos vendo-me daquele jeito. Disseram que ele permaneceria vivo no meu coração.

No velório, até que não me importei muito com a cerimônia. Fui para o quarto ver o jogo do Brasil (agora lembrei, era de fato 1995, e o Brasil disputava a Copa América, em jogo contra o Perú. Quando Ronaldão, o zagueiro, fez um gol de cabeça, dei um grito alto no quarto ao lado do velório: “GOOOL!” O velório inteiro direcionou-se para dentro do quarto; leveis alguns esporros, de várias camadas familiares, principalmente primos e tios). Mas na hora que o corpo desceu a sepultura, vi a tia Neide colocar um saco no canto da cova. Eram os ossos da vovó Emília. Ali, na beira da cova, fiquei atônito; e na cova ao lado, aberta não sei por que, vi um crânio no fundo, solto. De imediato associei aquela “caveira” ao lado à possibilidade de ter uma igualzinha no saco depositado na cova do vovô. Mais que isso, se vovó ficara daquele jeito, vovô também ficaria, portanto, era assustador estar diante daquilo tudo; o “o fim do ser humano é horrível”, pensei.

De lá pra cá, o que para os da minha faixa etária era conquistar a maioridade, independência,  era, para mim, aproximação daquele estado pútrefo da vida do qual ninguém escapa. E será que tudo se encerrava ali? Será que no final das contas, o destino mesmo não é ser apenas osso? Ou existe a “vida eterna” de que tanto meu pai fala na igreja?

Aos poucos, aprendi a abster-me desses pensamentos. Mas sei que daqui a pouco, umas 5 ou 6 horas, voltarão. Com eles, 26 anos e a perda de uma prima linda (mas que – por culpa de um cancro que por todo o corpo se espalhou – acabou juntando-se a vovó e o vovô)…

O medo da velhice está sempre na porta ao lado. Ano a ano ele a abre, entra e se faz presente; da forma mais familiar e estranha possível. Só sucumbe, todavia, à vontade de viver.

É isso.
Moisés N.

                                             Aniversário – Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… 
A que distância!… 
(Nem o acho… ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,  
Pondo grelado nas paredes… 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio… 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos … 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim… 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui… 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . 
  
Pára, meu coração! 
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!   
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! … 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

abr
27

Teatro do Absurdo: uma breve nota.

 

 

Hoje falei ao vivo sobre ”teatro do absurdo” com a Jamile e o Ítalo no programa Vice-verso da rádio 104.7. Foi terrível, pois eu fiquei nervosíssimo e nada consegui dizer daquilo que tinha planejado. Todavia, eu tinha preparado previamente um textinho para a ocasião.  Publico-o aqui, portanto, para que todos conheçam minhas ideias sobre o assunto e não levem em consideração o meu nervosismo e imaturidade ao telefone.

É isso.
Moisés N.

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Boa noite Jamile e Ítalo; boa noite, queridos ouvintes do programa Vice-Verso. Pensando no tema do programa de hoje – que é cama – e no convite feito a minha pessoa para falar de teatro neste programa já consagrado no espaço artístico-cultural da Grande Vitória, fiquei pensando no quão “absurdo” é tudo isto. Primeiro, pensar numa programação de rádio focada em música e poesia ter como tema a “cama”; segundo, Eu, um mero rapaz nada prático e bastante mediano ser convidado para falar de teatro, arte tão necessária para a vida humana quanto comer arroz, feijão e salada, mas também tão pobre por essas bandas do sudeste.

Foi pensando nisso que resolvi falar do “Absurdo”. É interessante pensar a importância deste termo nos estudos cênicos. Se hoje o conhecemos através do “Teatro do Absurdo” da década de 1º metade do século XX – alusão a obra de Beckett, Ionesco e Tardieu –, esta palavra já se faz presente na dramaturgia desde a Grécia Antiga.

Segundo o historiador e crítico Patrice Pavis, o eco desta palavra chega ao teatro feito por Aristófanes, Plauto, na Commedia dell’arte. O significado etimológico que a palavra possui – aquilo que é contrário à razão, contraditório – se aproxima bastante do seu significado cênico. No teatro, o absurdo é aquilo que aparece como despropositado, sem sentido lógico no todo da cena. Quando não se consegue encaixar alguns elementos no contexto dramatúrgico, cênico, ideológico de alguma peça, denominamo-os de “absurdos”.  

O verbete se amplifica com a filosofia existencial, em que o absurdo não só não pode ser explicado pela razão, como também recusa qualquer explicação racional e política de sua ação. Não há explicação para o caos. E essa parte do existencialismo parece nos direcionar para o que hoje se popularizou como “teatro do absurdo”.

O termo ”Teatro do Absurdo” surgiu em 1961, na capa do livro The Theatre of the Absurd, de Martin Esslin. A expressão foi assim sistematizada numa tentativa de dar conta dos rumos bastante diversos que a dramaturgia tomou naquele período. E para compreender esse teatro, é preciso pensá-lo de acordo com o “espírito da época”, à luz do Zeitgeist, pois naquele contexto de mundo esta manifestação cênica apresentava uma nova atitude, uma nova forma de construção estética perante as artes, a filosofia, a religião, a política, a sociedade; em suma, um teatro que encarava a realidade por outro ângulo.

E de fato, não dava para esperar outra coisa. Olhemos para a Europa daquele período: pós-segunda guerra mundial; descrença no capitalismo democrático; incredulidade quanto ao socialismo, haja vista o extremismo stalinista; descrença em Deus, pois não dava para acreditar em um ser supremo longânimo e benevolente que permitia tantas atrocidades acontecerem com a vida humana. Ou seja, qualquer que fosse a direção dos ponteiros, o que se encontrava era um hiato, um vazio, uma ausência de pilares, um caos, um absurdo.

Portanto, o “teatro do absurdo” surge de uma profunda reflexão de mundo, que envolve o homem, a realidade, a linguagem, mas, sobretudo, uma reflexão sobre o próprio fazer teatral. Pois, de certa forma, seguir o modelo cênico tradicional vigente era se colocar diante de um modelo falido frente àqueles acontecimentos. O teatro feito por Brecht, por exemplo, que de certa forma influencia os autores do “absurdo”, era visto de certa forma como um modelo a não ser seguido, pois era contemporâneo aos fatos da primeira metade do século XX, fazia parte da ordem e precisava ser revisto.  

Essa renovação teatral passava pela tentativa de refletir sobre o caos universal, ou seja, dizer o indizível. Exemplo disso é o clássico Esperando Godot, de Samuel Beckett. Nesta peça, considerada por muitos o marco inicial do Teatro Absurdo, há uma ruptura com a montagem clássica, e se percebe que o autor ousa estrutural, lingüística e semanticamente.  Isso porque um dos maiores problemas do ser – tanto na peça quando na modernidade – é a linguagem, ou melhor, a desintegração dela. Basta lembrarmos que para a filosofia existencialista, principalmente se falarmos de Heidegger, sem a linguagem, o ser simplesmente não existe, não é “ser”. A desintegração dela, portanto, denota uma falha, um hiato, um absurdo, uma desarmonia na humanidade.

Através de diálogos curtos e simples, em Esperando Godot temos uma obra que aponta os rumos do teatro contemporâneo. Não é à toa que o teatro se divide em antes e depois de Beckett, pois de fato houve uma transformação do fazer teatral e a teoria teatral teve que se virar para entender o que era tudo aquilo. Termino aqui com uma frase do Maurice Blanchot: “A literatura nasce no momento em que se torna uma questão”.  Sair do plano racional lógico e tentar compreender a realidade a partir dela e de suas relações com o homem e com a linguagem. Isso não traz respostas, mas questionamentos. E eis aí o X da questão.

abr
18

Na casa dos pais…

É de lei aos domingos almoçar na casa da D. Carmen. A maioria dos filhos assim faz. Isso significa comunhão, afetividade e, de quebra, uma economia mais barata nos lares de cada um. Ontem fui o primeiro a chegar. Faço isso sempre, mas só ontem notei que em quase todas as vezes que lá vou entro pela porta da cozinha. Como todo bom mineiro sabe (baianos também), este é o lugar sagrado da casa; amizade, afeto, cumplicidade, fuxico, mexerico e planos: tudo é arquitetado na cozinha. Se o anfitrião te convida para continuar o “bate papo” da sala naquela repartição, pode saber que no mínimo e considera muito.

Pois bem. É atento a isto que percebo que meus pais, nesses meus quase 26 anos de existência, consideram muita gente importante. Seu Antonio, por exemplo: um velho de mais de 85 anos, coxo de uma perna, entra lá em casa sem nem bater palma, entra pela porta dos fundos, pega uma banana na fruteira e pergunta se tem café. Isso sem levar em conta a quantidade de 30 reais que já pediu emprestado. Semelhante a ele, pela cozinha também entra o vendedor de queijo, que além de expandir suas vendas, leva para casa uma couve, um almeirão, uma taioba… Entra também a costureira da frente, que pede um feijão cozido emprestado, pois o dela queimou naquele instante. Entra a vizinha do lado pede água gelada, pois a geladeira dela pifou. A Raquel Cabeleireira chega à porta, e não contente apenas com o cafezinho, leva pra casa uma oração: pra ela, para o marido e para que a sua clientela aumente. Daí pra Fulana da quitanda, o Sicrano do carrinho da saúde e a Maria vai com as outras penetrarem o ambiente sagrado é um pulo. Até aqueles que passam na rua pedindo alimento são convidados a entrar, tomar um café, uma água, comer alguma coisa…

E no domingo é festa. Frango com quiabo, frango assado, polenta, arroz, feijão, Coca-Cola de dois litros, suco de hortelã com abacaxi. Por baixo, umas quinze pessoas se alimentam dominicalmente na casa de D. Carmen e seu Zé (a ordem é essa mesmo: primeiro dela, depois, bem depois… dele), divididos entre filhos, cunhados, netos, parentes próximos, agregados, periquitos, papagaios, cachorros e gatos. Todos passando pela cozinha!

Do pastor ao budista, do santo ao profano, ricos e pobres, todos são muito bem-vindos na casa de meus pais – que, quase igual a do Cristo, possui moradas e portas abertas…

É isso.
Moisés N.

mar
21

o novo e o velho (poema 5)

Um olhar visualiza o horizonte.

                 Ascendente.

Descendente.

mar
19

Das coisas de casa (poesia 6)

 

 

 

“água. alho. arroz. cebolinha. coloral. feijão. frango. fubá. mãe. óleo. pai. quiabo. sal. salsinha.

Arroz: cozinhado com água, alho, óleo e sal. Primeiro o óleo, seguido da mistura quase homogênea de alho e sal. A seguir, o arroz. Depois, a água. Por último, molha-se a ponta do dedo indicador na língua e toca leve e rapidamente uma das extremidades laterais da panela. Se a saliva evaporar-se instantaneamente, desliga-se o fogo.

Feijão: refogado com água, alho, óleo e sal. Primeiro, porém, cozinha-se no fogão à lenha do fundo do quintal, em tacho devidamente apropriado. O processo demorado da queima da madeira é compensado no resultado maior: um feijão autêntico, macio, leve, sem a sombra horripilante do tempo industrial. Com um leve douramento do alho no óleo, adiciona-se o feijão e deixar ferver.

Frango: ensopado com quiabo. Primeiro, corta-se em postas já conhecidas e cristalizadas (coxas, sobrecoxas, asas, peito, pescoço, costela…); o alho socado com sal é utilizado para temperá-los. No fogo, a gordura já está quente para receber os fragmentos temperados, que logo após serem fritos são recolhidos num recipiente à parte. Feito isso, inicia-se o processo de ensopamento – em que salsinha, cebolinha e quiabo (bem picadinho) se juntam ao frango frito que, pintado pelo coloral, transforma-se no conhecido “Frango com quiabo”.

Angu: Primeiro coloca o fubá e a água no fogo; depois pegue uma colher de pau e mexa, mexa, mexa. Quando estiver bem maciço, desligue e coloque num recipiente. Não se deve colocar Sal.

Lenço no cabelo. óculos na ponta do nariz.
é pelas costas que vejo a criação

compassos perfeitamente (des)lineares
constrói o cuidado.

No alumínio batido do prato
Vejo a rua Livramento, vejo Veneza,
Vejo Minas

Vejo uma Serra que se transforma em um vale
Imenso.

                Nada plano.

As mãos se alteram na confecção
e enquanto a da direita desliga o Arroz

a da esquerda mexe o frango, o angu e traz da mesa
os cheiros que erguem na cozinha o sabor da

infância.

A mãe chama pelo pai. Diz que é pra pegar o feijão lá no quintal. Pela Janela vejo-o vir. Parece curvado pelo tempo. No fogo, o cheiro do alho sobe e, ao receber o feijão, pequenas borbulhas saborosas exalam pela fumaça que se espalha. A mãe sorri. O pai também. Cena repetida. Observo-a e vejo que a única coisa que mudou no tempo e no espaço foram meus olhos. Eles agora notam que a importância desta cena está não na conservação, mas no desdobramento das coisas.

As mãos se multiplicam.
Tornam-se seis.

Movimentos alternados
organizam e dispõem

pratos – uns de vidro, outros esmaltados ou de alumínio batido – sobre a mesa, ocupados primeiro pelo feijão, depois pelo arroz, pelo frango com quiabo num canto, pelo angu no outro…

Uma oração a Jesus Cristo. Silêncio.

“Pode comer, Moisés”.

Entre uma colher e outra, conheço Peçanha, Matipó,
A Ipatinga anterior à Era Moderna…

Tudo se (re)significa.

Minas é o quintal de casa.”

*dedicado à minha Mãe: D. Carmen, que em fevereiro completou 67 anos.

É isso.

Moisés N.

mar
10

Pelas paredes da casa: crítica à peça “Bernarda, por detrás das paredes”, do grupo Repertório Artes Cênicas e Cia

A peça teatral Bernarda, por detrás das paredes, do grupo Repertório Artes Cênicas e Cia, foi um dos grandes espetáculos teatrais produzidos em solo capixaba em 2010. Uma adaptação da obra A casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, e da Poética, de Aristóteles, a encenação leva o espectador não só a perceber o perfeito domínio do texto que possuem os atores Nicolas Corres Lopes e Roberta Portela, como também a refletir sobre o fazer teatral, em que a metalinguagem, tão cara à Lorca, se faz presente a todo o instante.

Ao chegar ao portão 152 da Rua Professor Baltazar, no centro de Vitória-ES, e adentrar ao pequeno pátio da casa, o espectador de primeira viagem, sem se dar conta, já é plateia. Isto porque a encenação do espetáculo começa ali, com os atores promovendo uma “algazarra” nas janelas e paredes do segundo e primeiro piso – o que gera um pequeno pavor nas quase 50 pessoas ali presentes (o número é limitado em função do espaço e da proposta da peça) –, embalados por uma trilha sonora com fortes influências do flamenco espanhol. E quem leu o texto de Lorca, percebe nesta pequena “introdução” uma expansão do texto original, que talvez necessitasse de um pouco mais de cenário, caso a ideia fosse encenar a peça do dramaturgo. No entanto, é nisso que o grupo Repertório se sobressai e mostra que Bernarda é um espetáculo contemporâneo, pois a adaptação do texto para a casa, principalmente em tentar limitar o texto àquele espaço físico, é genial.

Percebe-se o dedo preciso e minucioso da diretora do grupo, Nieve Matos, que demonstra habilidade tanto na adaptação textual quanto em dispor o espetáculo na ambiência da casa. Acostumado a ver só lamento nesta cidade por parte daqueles que fazem teatro, ora pela falta de espaço, ora pela de público, encantou-me ver a capacidade da diretora de levar o teatro para espaços em que ele nunca deixou de existir – na rua, no caso do espetáculo anterior (Peroás e Caramurus) e nas casas. Não é novidade a utilização da casa – já que em outros lugares, sobretudo aqui no Espírito Santo, já se fez isso; mas o sabor consiste em fazer isto com a obra de Lorca, grande dramaturgo por excelência, que, portanto, exige sensibilidade e maturidade estética. E isso pode ser notado na forma como as personagens do texto original se desdobram nos dois atores do espetáculo (Nicolas e Roberta) – que se dividem ora em Bernarda, ora em Maria Josefa, Angústias, Madalena, Amélia, Martírio, Adela, La Poncia, criada, Prudência etc., etc., etc.

Nieve Matos, em comparação a outros dramaturgos contemporâneos capixabas, sobressai. Talvez por saber dosar a teoria – algo em parte raro para alguns escritores daqui – e a prática teatral em uma sintonia que beira à perfeição, se não fosse o excesso de metalinguagem que recheia o espetáculo e parece sobrar. Cito um exemplo: várias vezes os atores se apresentam enquanto Nicolas e Roberta durante o espetáculo; destituídos ou não dos personagens, isso traz sabor ao espetáculo; porém, às vezes sobeja como no trecho em que o personagem de Nicolas afirma que “a próxima cena será encenada a pedido da atriz Roberta Portela”. Esse é um pequeno exemplo que se pode dar em que se nota a sobra da metalinguagem no espetáculo, já que não há necessidade dela ser marcada a todo o instante.

No entanto, isso é apenas pequenos detalhes que em nada prejudicaram o impacto estético que a peça proporcionou ao público presente, com certeza marcado pelo desconforto, seja rindo ou espantado; porém, nunca doce demais, ao ponto de deixá-los curiosos a respeito de quais os próximos rumos do grupo Repertório.

* a foto é de Ariny Bianchi.

É isso.
Moisés N.

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