Se pudesse resumir a ideia de dança-teatro em uma só frase, valer-me-ia da que a bailarina brasileira Regina Advento, integrante da Cia Tanztheater fundada por Pina Bausch, proferiu numa entrevista: “o que mais me impressionou foi que eles não eram bailarinos em cena, eram pessoas”. Tal definição é formidável, pois resume bem a visão de arte que a idealizadora do grupo possuía. Pina nunca pensou a dança-teatro centrada somente nesses dois eixos que o nome evoca, mas correlata a outras manifestações artísticas. Nos seus espetáculos, a literatura, a música, o teatro, a dança eram convidados ao palco. Mais do que isso, no palco, “pessoas” cantavam, encenavam, dançavam… Sem sombra de dúvida, uma revolução estética.
Escrevo isso com o intuito de situar o espetáculo de dança-teatro Sonata para despertar, do grupo Repertório Artes Cênicas, interpretado pela excelente Roberta Portela e dirigido por Antonio Apolinário – integrante da Cia paulista São Genésio, que já trabalhou com o Repertório no espetáculo “Peroás e Caramurus”. Não houve uma revolução. Mas a encenação é digna de nota. Primeiro por tratar-se de um grupo preocupado em construir uma linguagem singular, um projeto estético, ao qual, inclusive, já é possível recorrer em alguns pontos – ainda que seja cedo para esse tipo de diagnóstico. Segundo, porque a agonia do “novo”, de experimentar, de construir espetáculos compromissados não apenas com a fruição, entretenimento, mas, indo além, com a indagação, o questionamento, o pulsar é sempre evocada. Há na Cia Repertório o desejo pelo “desconforto”. E isso é bom.
Sonata para despertar não decepciona. Livremente inspirado no conto “Nunca é tarde, sempre é tarde”, do escritor Silvio Fiorani, o espetáculo encena o cotidiano, sobretudo o que está escamoteado, opaco, sedado pela rotina:
“nem bonita, nem feia. Secretária”, diz a personagem.
Entre o acordar e o deitar, vários mundos se despertam. Ao dia, à brutalidade do dia: a secretária, a mulher em sua forma bruta desprovida de quaisquer direitos. Dormir, acordar, tomar café da manhã, organizar o dia, são coisas as quais ela desconhece completamente. À noite, ao onírico, ao sonho, ao outro lado da rotina, no outro mundo: a bailarina disforme, descompassada da realidade petrificada que a cerca. E nessa ambivalência – sonos e sonhos, realidade e real, acordar e dormir, secretária e bailarina – o paradoxo instala-se como um corte agudo nas paredes que sedimenta a rotina. Ressalto aqui a excelência cênica de Roberta Portela. Uma atriz completa, forte na expressão, que passa segurança e firmeza, perfeitamente enquadrada na categoria de “pessoas” que dançam e encenam. As cenas em que bailarina e secretária se confundem são de uma agonia latente, um horror melancólico, que outra coisa não faz senão deslocar o espectador das zonas de conforto.
Espetáculo de profundo interesse, Sonata para despertar apresenta mais uma vez o grupo Repertório na frente, com qualidade e precisão dignas dos grandes palcos. Ressalvadas algumas linearidades cênicas, que quase me enganaram – o “falso” final do espetáculo que induziu a plateia a aplaudir, mas que em mim criou um dissabor, que pensei: “se acabar assim, o espetáculo terá perdido uma grande oportunidade de não-linearidade”. Mas isso não aconteceu.
É isso.
Moisés N.












